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A prova constitui o elemento central e vital de qualquer processo jurisdicional. É através dela que os factos alegados transitam do domínio da mera afirmação, da retórica e da especulação para o domínio da verdade processual. Esta transição permite a subsunção jurídica que culminará na decisão final do litígio. Como ensinou de forma indelével Antunes Varela, «a prova, por exigências da vida jurisdicional e da natureza da maior parte dos factos que interessam à administração da justiça, visa apenas a certeza subjectiva, a convicção positiva do julgador».Contudo, o modo como essa convicção se forma e, sobretudo, a forma dogmática e prática como a prova é requerida, admitida, produzida e valorada, difere de forma radical entre os tribunais judiciais judiciais e os tribunais arbitrais.
A arbitragem não constitui, como frequentemente se pensa num raciocínio simplista, uma mera «privatização» do processo civil. Não é uma simples deslocação da sala de audiências de um edifício do Estado para uma sala de conferências de um escritório de advogados ou de um centro de arbitragem. Trata-se de uma jurisdição com uma natureza, uma ontologia e uma cultura probatória absolutamente próprias. Esta cultura é marcada por uma profunda flexibilidade procedimental, pela autonomia da vontade das partes e por uma influência constante e avassaladora de práticas transnacionais que desafiam os paradigmas dogmáticos tradicionais em que o jurista português, de matriz continental romanogermânica (civil law), é habitualmente formado. (...)
Na arbitragem, a gestão da prova raramente se resolve por mera remissão automática para disposições do Código de Processo Civil. Pelo contrário, exige a aplicação prudente e contextualizada de princípios estruturantes, como o contraditório, a igualdade de armas e a lealdade processual, a um procedimento frequentemente desenhado ad hoc para as particularidades do caso concreto.
O presente manual propõe-se preencher esta lacuna doutrinária e prática. O seu objetivo é fornecer ao jurista português um guia exaustivo, teoricamente denso e eminentemente prático sobre a gestão da prova na arbitragem, com particular enfoque na arbitragem comercial (nacional e internacional). Ao longo desta obra, exploraremos não apenas as regras e os princípios aplicáveis, mas também as estratégias, as táticas e os erros comuns que ditam o sucesso ou o fracasso de um caso.
ÍNDICE
Introdução: A Especificidade Probatória da Jurisdição Arbitral
Tipologia das Arbitragens e Reflexo na Atividade Probatória
Capítulo 1 — Fundamentos Dogmáticos e Limites da Prova em Arbitragem
1.1. A Autonomia das Partes e a Emancipação do Processo Civil
1.2. Os Limites Inultrapassáveis: O Due Process e a Ordem Pública Processual
1.3. A Livre Apreciação da Prova e a Dogmática da Valoração
Caso Prático: A Emancipação Probatória face ao CPC e o Limite da Igualdade
Capítulo 2 — Preparação e Organização Estratégica da Prova
2.1. O Objeto da Prova e a Dogmática do Ónus Probatório
2.2. Planeamento Probatório: O Early Case Assessment
2.3. A Conferência de Gestão do Processo (Case Management Conference)
2.4. A Estratégia da Bifurcação do Processo (Bifurcation)
Caso Prático: O Ónus da Prova e os Custos de Transação na Crise Global
Capítulo 3 — Meios de Prova: A Dogmática e a Prática Transnacional
3.1. A Prova Documental e a Batalha da Document Production
Caso Prático: A Batalha da Document Production e a Proteção do Segredo de Negócio
3.2. A Prova Testemunhal: O Domínio Absoluto do Witness Statement
Caso Prático: A “Sobre-Preparação” do Witness Statement e o Colapso da Credibilidade
3.3. As Declarações de Parte: A Dissolução do Dogma Processual Civil
3.4. A Prova Pericial: Do Perito das Partes ao Hot-Tubbing
Capítulo 4 — A Audiência Arbitral e a Dinâmica da Produção da Prova
4.1. A Dinâmica Temporal e o Fim do Inquisitório Judicial
4.2. A Condução da Audiência e a Anatomia da Inquirição
4.3. O Cross-Examination Adaptado à Matriz Cultural Portuguesa
Caso Prático: O Cross-Examination Letal e a Incoerência Narrativa
4.4. A Intervenção do Tribunal Arbitral e os Incidentes Probatórios
Capítulo 5 — A Valoração da Prova e a Fundamentação da Sentença Arbitral
5.1. A Livre Apreciação da Prova e a Emancipação do Árbitro
5.2. Critérios de Valoração e a Convicção do Árbitro
5.3. A Teoria das Inferências Adversas e a Spoliation
Caso Prático: As Inferências Adversas e a Destruição de Prova (Spoliation)
5.4. O Dever de Fundamentação da Sentença Arbitral
Capítulo 6 — Estratégia, Erros Comuns e a Patologia da “Guerrilha Arbitral”
6.1. Erros Frequentes na Gestão da Prova
6.2. A “Guerrilha Arbitral” e os Seus Remédios Dogmáticos
Caso Prático: A “Guerrilha Arbitral” e a Reação Sancionatória do Tribunal
6.3. A Prova e a Ordem Pública Processual: O Limite Inultrapassável
Capítulo 7 — Análise Dogmática e Prática dos Instrumentos Transnacionais: IBA Rules vs. Prague Rules
7.1. As IBA Rules of Evidence (2020): O Padrão Ouro da Arbitragem
Artigo 1.º — Âmbito de Aplicação e Flexibilidade
Artigo 2.º — A Consulta Prévia sobre Prova
Artigo 3.º — A Document Production e a Tabela de Redfern
Artigo 4.º — Testemunhas de Facto (Witness Statements)
Artigo 5.º — Peritos Nomeados pelas Partes (Party-Appointed Experts)
Artigo 6.º — Peritos Nomeados pelo Tribunal (Tribunal-Appointed Experts)
Artigo 8.º — A Audiência de Prova (Evidentiary Hearing)
Artigo 9.º — Admissibilidade e Valoração da Prova: Os Limites
7.2. As Prague Rules (2018): O Regresso do Inquisitório. As Diferenças Dogmáticas Fundamentais face às IBA Rules
7.3. IBA Rules vs. Prague Rules: Qual Escolher?
Capítulo 8 — Jurisprudência Comentada: O Controlo Judicial da Prova Arbitral
8.1. A Falta de Fundamentação da Sentença Arbitral
8.2. A Violação do Princípio do Contraditório e da Igualdade de Armas
8.3. A Violação da Ordem Pública Internacional
8.4. A Prova Ilícita e o Controlo Judicial
Capítulo 9 — Formulários e Peças Processuais Comentadas
9.1. Ordem Processual n.º 1 (Procedural Order No. 1) — Secção de Prova
9.2. A Tabela de Redfern (Redfern Schedule)
9.3. O Depoimento Escrito (Witness Statement)
Capítulo 10 — Análise Doutrinária: O Ónus da Prova e os Custos de Transação
10.1. A Relação entre o Ónus da Prova e o Princípio do Due Process
10.2. A Regra Geral do Ónus da Prova (Actori Incumbit Probatio)
10.3. O Paradoxo: A Importância do Ónus da Prova vs. O Silêncio Institucional
10.4. Custos de Transação e a Tentação de Inverter o Ónus
10.5. A Posição Doutrinária: A Inalterabilidade do Ónus
Capítulo 11 — Análise Doutrinária: A Intervenção do Tribunal Estadual na Prova Arbitral
11.1. O Problema Estrutural: A Ausência de Ius Imperii do Árbitro
11.2. A Solução Legal: O Artigo 38.º da LAV
11.3. Trâmites Processuais da Solicitação de Auxílio
11.4. Desafios e Propostas de Alteração Legislativa
Capítulo 12 — A Prova na Arbitragem de Consumo
12.1. Enquadramento Jurídico e Dogmático
12.2. A Simplificação Probatória e o Princípio da Inquirição
12.3. Jurisprudência e Doutrina
12.4. Caso Prático Aprofundado: O Defeito Automóvel e a Presunção Legal
Capítulo 13 — A Prova na Arbitragem Tributária (CAAD)
13.1. Enquadramento Jurídico e a Natureza Administrativa
13.2. A Primazia da Prova Documental e a Restrição da Prova Testemunhal
13.3. Jurisprudência e Doutrina
13.4. Caso Prático Aprofundado: Os Métodos Indiretos e a Falta de Prova da AT
Capítulo 14 — A Prova no Tribunal Arbitral do Desporto (TAD)
14.1. Enquadramento Jurídico e a Dupla Natureza do TAD
14.2. A Prova Disciplinar e a “Tolerância Zero” à Dilação
14.3. Jurisprudência e Doutrina
14.4. Caso Prático Aprofundado: O Erro de Identidade no Relatório do Árbitro
Capítulo 15 — A Prova nos Julgados de Paz
15.1. Enquadramento Jurídico e a Natureza de “Tribunais de Proximidade”
15.2. A Informalidade Probatória e o Papel do Juiz de Paz
15.3. Jurisprudência e Doutrina
15.4. Caso Prático Aprofundado: O Muro de Estrema e a Prova por Inspeção
Conclusão: A Arbitragem como Espaço de Excelência Probatória
Referências Bibliográficas
Legislação e Regulamentos
Doutrina Nacional
Doutrina Internacional
Jurisprudência